O jogo Shadow the Hedgehog é incompreendido? (Opinião)

Shadow the Edgy. (Imagem tirada da internet)

O jogo solo do Shadow foi lançado em 2005 e foi um sucesso comercial imenso, mas foi também o primeiro jogo do Sonic a ter uma recepção unanimante negativa por parte da crítica especializada e que mais dividiu opiniões dentro da fanbase. De um lado temos pessoas que odeiam esse jogo com todas as forças e consideram ele um dos pontos mais baixos da história da franquia, ao lado de Sonic 2006, do outro temos pessoas que gostam e constituem uma legião de fãs. Shadow the Hedgehog consegue, ao mesmo tempo, ser um dos títulos mais impopulares e também mais populares dentro do fandom. Coisas que só acontecem entre fãs do Sonic mesmo 😂

Durante muitos anos, pertenci ao primeiro grupo. A primeira vez que experimentei o jogo do Shadow foi pouco depois que ele saiu e a versão de Playstation 2. Tive uma experiência absurdamente terrível, ficava confuso sem saber o que fazer. Fiquei tão traumatizado que nunca mais quis olhar para este jogo.

Contudo, sempre me intrigou ao participar de comunidades tanto brasileiras quanto internacionais o quanto ele é popular. Inclusive, entre amigos meus que também são fãs do Sonic. Não conseguia entrar na minha cabeça como um jogo teoricamente tão terrível poderia ter agradado tantas pessoas. Resolvi dar uma nova chance e, para minha surpresa, gostei!

A questão é que o jogo do Shadow é um pouco diferente dos jogos tradicionais do Sonic, a progressão das fases é feita através de missões, mas na época eu era pequeno e não tinha um inglês bom o suficiente para entender o que eu precisava fazer. Eu acabava ficando perdido e frustrado. Eu também havia jogado muito pouco e não havia experimentado várias fases interessantes que descobri na segunda tentativa.

Uma das maiores surpresas foram as fases Mad Matrix e Digital Circuit presentes no game. São alguns dos melhores level designs que eu já vi em um jogo 3D do Sonic. Ambas conseguem balancear velocidade, plataforming, exploração e gimmicks de forma excepcional. Apesar de se passarem no mesmo local e terem visuais semelhantes, os dois estágios possuem level design e gimmicks bem diferentes.

Gameplay Mad Matrix, todas as missões.

Outras fases que são incríveis, na minha opinião são a Circus Park e a Crypic Castle. Na missão Hero da primeira, precisamos explorar a fase e encontrar atrações para conseguir rings e, ao mesmo tempo, prestar atenção para não receber danos já que temos de acumular 400 para completar o desafio. Na segunda, em uma das missões precisamos explorar o cenário e ascender tochas pela fase.


Crypic Castle, todas as missões.

Circus Park, todas as missões.

O jogo é envolto de polêmicas porque ele possui um sistema de armas e veículos, além de uma história e ambientação mais sombrias. Acredito que boa parte dessas reclamações não fazem muito sentido. O jogo do Shadow foi anunciado como o início de uma série paralela dentro da franquia que traria esta proposta diferenciada, mas os jogos principais continuariam com apelo mais universal como Sonic Heroes.

Uma nova sub-série dentro da franquia

Esse tipo de iniciativa já foi feita em outras franquias e deu certo. Por exemplo, Megami Tensei e Persona. A série original é composta de jogos de nicho com gameplay mais difícil e estratégico, histórias mais sombrias, intelectuais e ambientação mais adulta. Em contraste, a sub-franquia Persona possui ambientação e enredos mais juvenis com vários elementos de comédia, gráficos mais coloridos, trilha-sonora com música pop e elementos de simulação de relacionamentos bem populares no Japão e inspirados em jogos como Sakura Wars. Cada uma dessas vertentes visa públicos diferentes e a Atlus já lançou inúmeros outros spin-offs de Megami Tensei com apelo mais juvenil, como a série Devil Survivor de DS e 3DS.

Shin Megami Tensei. (Imagem retirada da internet)

Persona. (Imagem retirada da internet)

Essas duas imagens acima exemplificam muito bem a diferença visual e de tom das duas séries. Uma diferença parecida com a de Shadow the Hedgehog e Sonic Heroes. Não vejo sentido em criticar o jogo por ter uma direção diferente dos jogos tradicionais, ainda mais considerando que ele não veio para substituí-los, mas expandir os horizontes da marca e diversificar sua audiência.

Um dos temos pejorativos mais utilizados ao se referir ao jogo do Shadow, e ao seu personagem é o edgy. Outros jogos e personagens da série ou até mesmo de outras franquias também recebem essa fama como o recente Sonic Forces, o vilão Infinite, o clássico Sonic Adventure 2 ou o jogo Epic Mickey de Nintendo Wii. O grande problema desta descrição é que ela não significa absolutamente nada. As pessoas jogam essa definição vazia para se referir a qualquer coisa que tenha um tom mais sombrio, ou pior, tente se levar a sério. A questão é: por que isto é um problema?

As respostas sempre são: "Ah, mas no Mega Drive não era assim", "jogos do Sonic não devem se levar a sério porque são jogos de plataforma", "a premissa de jogos de plataforma deve ser só uma desculpa para o jogo acontecer".

A grande fragilidade nestes argumentos é que eles ignoram que boa parte da simplicidade de jogos 16bits se dá por limitações tecnológicas da época e não porque existe uma lei universal que proíbe jogos de gênero de terem qualquer uma destas características. Seria como reclamar da física mais avançada de jogos atuais porque na sexta geração não era assim. Ou reclamar que os jogos deveriam para sempre ter as câmeras ruins do início da era 3D. No final das contas, essa lógica esconde uma força saudosista que quer impedir a franquia de evoluir para que ela permaneça como uma memória nostálgica do passado.

Nem tudo são flores

O texto até agora pode causar a impressão que Shadow the Hedgehog é uma obra-prima e que todas as críticas que o jogo recebeu são injustas, mas não é bem assim, o jogo possui alguns defeitos que vou elaborar brevemente neste tópico.

O primeiro deles e talvez mais grave é que algumas fases não balanceiam bem o fator exploração. A Lost Impact lá para o final do jogo é o maior exemplo disso. Ela se passa dentro da Colônia Espacial Ark e é um verdadeiro labirinto grande em que todas as sessões e salas parecem iguais, deixando tudo mais confuso. Uma das missões consiste em explorar todo o cenário e matar todos os chaos artificiais. A pessoa que gravou este gameplay conseguiu terminar a fase em cerca de 4 min, mas alguém que nunca jogou pode levar até 30 rodando nesse labirinto confuso.

Lost Impact é de longe a pior fase do jogo.

Defeitos menores são as armas e veículos. A maioria das armas é muito útil e adiciona bastante variedade ao combate, porém, as bazucas são bem inúteis já que não possuem mira automática e o Shadow se movimenta rápido demais tornando a utilização impraticável em 99% do tempo. Com relação aos veículos, eles podem ser úteis porque tornam o Shadow invulnerável enquanto dirige (o veículo que recebe os danos), alguns possuem armas acopladas com munição ilimitada e outros permitem que o Shadow pule mais alto e alcance mais facilmente alguns locais. Contudo, existe também uma porção de veículos inúteis. Estes problemas são bem negligenciáveis porque todas as fases possuem uma grande variedade de armas disponíveis e o jogador tem liberdade de escolher a que preferir, enquanto os veículos são opcionais na maior parte do tempo.

Os outros problemas que Shadow the Hedgehog possui são semelhantes ou herdados de Sonic Heroes, jogo da série anterior. Os controles são os mesmos, a aceleração do Shadow é ruim e ele se movimenta de forma escorregadia. Isso se dá pelo fato de que os desenvolvedores reaproveitaram a engine e os modelos de Heroes devido a um prazo curto para o desenvolvimento do game. Este reaproveitamento também ocasionou em visuais pouco impressionantes já que a engine foi pensada para um jogo com a direção de arte completamente diferente. As fases mais bonitas do jogo do Shadow acabam sendo as que possuem visuais mais surrealistas e coloridos, como a Mad Matrix e Digital Circuit que se passam dentro de um computador.

Visualmente o jogo do Shadow é mais fraco que Sonic Heroes e Sonic Adventure 2, seus antecessores. (Imagem retirada da internet)

O jogo possui um sistema de progressão de fases não linear em que o jogador pode escolher se quer que o Shadow se torne herói ou vilão. Este ponto é tanto um destaque quanto um defeito. É uma ideia muito legal poder escolher como progredir, que missões cumprir. Iniciar a campanha novamente para fazer novas rotas e descobrir novas fases. É bem empolgante e aumenta consideravelmente o fator replay. Todavia, é necessário concluir todos os 10 finais para desbloquear o final verdadeiro, e neste ponto o jogo se torna bem repetitivo.

A Last Mode é uma boa recompensa, temos um final com CGI fenomenal e que deixa em aberto qual das trajetórias de eventos é verdadeiramente canon, abrindo espaço para teorias e interpretações dos jogadores, mas é realmente cansativo ter que passar pelo jogo 10 vezes para desbloqueá-lo.

A progressão de fases não-linear também torna a sucessão de cutscenes inconsistente a personalidade do Shadow bem confusa caso você decida mudar de lado no meio do trajeto (o que é possível). O final verdadeiro é legal, mas as cenas finais de boa parte das histórias alternativas são bem estranhas e, em alguns momentos, bizarras ou cômicas.

Sistema de progressão de fases não linear é um dos destaques do jogo, mas também torna ele repetitivo e com enredo confuso. (Imagem retirada da internet)

Conclusão

Shadow the Hedgehog é um jogo controverso. Na minha opinião, ele é bom, porém visivelmente menos polido que Sonic Heroes e Sonic Adventure 2, provavelmente devido ao prazo curto de desenvolvimento. Eu gosto de muitas ideias utilizadas nesse jogo, o fato de várias fases terem level designs mais profundos e criativos, com elementos de exploração, gimmicks e puzzles em um gameplay de velocidade estilo Sonic. As inspirações em Hollywood para a ambientação e todo o conceito de uma sub-franquia com propostas diferentes são bem interessantes.

Infelizmente, com a sua recepção massivamente negativa, todas essas ideias incríveis foram descartadas e nunca mais revisitadas, mesmo tendo muito potencial caso fossem devidamente polidas. Hoje em dia a maioria dos jogos do Sonic em 3D são cheios de sessões 2D, level design e plataforming 3D raso. O jogo do Shadow mostra que seria possível sim fazer um jogo inteiramente em 3D com mais profundidade e varidade, mesmo que isto não tenha funcionado em todas as suas fases.

Provavelmente se o jogo do Shadow tivesse uma engine gráfica e de gameplay desenvolvida especialmente para ele e um prazo de desenvolvimento maior e mais flexível, teria sido um título inquestionavelmente bom. O resultado, para mim, continua satisfatório apesar de tudo.


Comentários

  1. Cara....odeio os críticos que só falam mal desse jogo ( não você é claro)

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