Porque não faz sentido afirmar que Sonic Adventure envelheceu mal

(Imagem retirada da internet)

Sonic Adventure foi o primeiro jogo em 3D do Sonic lançado originalmente em 1998 no Japão e em 1999 nos Estados Unidos para o Dreamcast, último console da Sega. Na época que ele saiu, foi massivamente aclamado pela crítica e o público sendo considerado a transição perfeita para o ambiente 3D. Ainda durante parte dos anos 2000, os Adventure 1&2 eram vistos pela fanbase do ouriço como melhores jogos em 3D da franquia ou até mesmo os últimos jogos bons do Sonic. Alguns fãs até consideravam os dois como melhores jogos da série toda, superando até mesmo os clássicos de Mega Drive.

Contudo, o tempo foi passando e as pessoas começaram a questionar o legado desses jogos. A opinião pública passou a considerá-los o começo da decadência e que, na verdade, Sonic nunca funcionou bem 3D. Críticos acusam Sonic Adventure 1&2 de terem envelhecido mal e se tornado títulos ruins.

Vou explicar porque essas concepções e críticas não fazem absolutamente nenhum sentido.

Jogos velhos... envelhecem!

Não é justo julgar jogos antigos com os critérios de qualidade contemporâneos. Conforme a tecnologia avança, os padrões da indústria de games sobem. Jogos da primeira leva 3D lá da época do Playstation 1, Nintendo 64, Sega Saturn e Dreamcast não devem ser analisados sem considerar o contexto em que foram lançados. Isso não se aplica apenas a este período, mas o quanto os games dessa época envelheceram é algo mais visível.

Desmerecer a qualidade, impacto e importância de um jogo antigo porque ele não parece tão atrativo atualmente é anacronismo, segue definição do Google Dicionário:
  1. erro de cronologia que ger. consiste em atribuir a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época, ou em representar, nas obras de arte, costumes e objetos de uma época a que não pertencem.
  2. atitude ou fato que não está de acordo com sua época. "o uso de espartilhos é um a."

Sonic Adventure no Dreamcast. (Imagem retirada da internet)

Na época que o primeiro Sonic Adventure foi lançado, ele foi um jogo incrível e extremamente ambicioso. Atualmente, muita gente não vê nada de especial nos hub worlds, ou Adventure Fields, no entanto, nos anos 90 os jogadores não estavam acostumados a explorar ambientes tridimensionais e apenas ter esta possibilidade já era um detalhe atrativo por si só. SA também foi o primeiro jogo de plataformas a trazer um enredo mais elaborado pela perspectiva de vários personagens.

As fases dos dois Adventures hoje não parecem tão grandiosas ou elaboradas, tendo como base o padrão de qualidade atual, até mesmo dos jogos do Sonic. Contudo, não existia nada mais elaborado que isto naquela época e elas foram feitas dentro dos limites de contagem poligonal e processamento que o Sega Dreamcast oferecia.

Tanto Sonic Adventure 1, quanto o 2, ofereciam ótimas experiências e conteúdos extremamente atrativos para fãs do Sonic e do gênero plataforma na época que eles saíram. Eles eram inovadores e ambiciosos. É injusto e anacrônico acusar esses jogos de terem envelhecido, como se isso de alguma forma fosse um ponto negativo ou uma constatação de que ambos não tem qualidade.

Os jogos do Mario também envelheceram

Eu sei que comparar Mario e Sonic é um clichê, mas não vejo exemplo melhor de mostrar a falta de lógica dessas críticas anacrônicas do que aplicar os mesmos pesos e medidas aos jogos antigos do encanador.

O primeiro jogo do bigodudo em 3D foi Mario 64 lançado em 1996. Ele foi um título extremamente revolucionário porque criou o gênero plataforma tridimensional e também definiu detalhes padrões de design para jogos em 3D de modo geral. Contudo, este jogo envelheceu tanto quanto Sonic Adventure, listando algumas falhas:
  • O level design de Mario 64 é inconsistente. O jogo não sabe se quer focar no platforming, puzzles ou na exploração;
  • Os controles são um pouco desengonçados, especialmente em plataformas pequenas ou estreitas. Ao tentar mover o Mario com o analógico, frequentemente ele corre na direção errada e pode cair;
  • Mario recebe dano ao cair de lugares altos;
  • A física do jogo não é muito boa;
  • A câmera é ruim e em determinados momentos pode se posicionar de forma que o jogador não consiga enxergar direito o Mario ou as plataformas, mesmo ao tentar movimentá-la;
  • Os gráficos do jogo tem muitos detalhes pré-renderizados misturados com poligonais que causam um aspecto estranho.

Mario 64, primeiro jogo em 3D do bigodudo. (Imagem retirada da internet)

Nenhum desses detalhes tiram os méritos de Mario 64 porque ele foi um dos primeiros jogos de plataforma em 3D. A câmera dele é ruim, mas foi o primeiro jogo que ofereceu a possibilidade de o jogador controlar a câmera. O level design dele é inconsistente, mas ainda não existiam bases de level design para este tipo de jogo.

Um exemplo que isto fica mais evidente seria o primeiro Super Mario Bros para o Nintendo 8bits. Ele tem física ruim e inconsistente, é visualmente feio e é extremamente repetitivo. Porém, ele foi o primeiro jogo de plataformas da história. Não existia nada como ele para comparar, todos os jogos do gênero lançados posteriormente tiveram inevitavelmente que se inspirar.

Gameplay do primeiro Super Mario Bros (FC/NES)

Entende? Da mesma forma que não faz sentido desmerecer a qualidade e importância de Mario 64 ou do primeiro Super Mario Bros para a indústria na época do seu lançamento porque são jogos velhos e com aspectos datados, não faz sentido desmerecer Sonic Adventure. Poderia dar infinitos exemplos aqui, como os primeiros Resident Evil ou Final Fantasy VII de PS1.

Conclusão

Infelizmente, existe muito deste anacronismo quando se trata dos Sonic Adventures 1&2. Todavia, essa lógica torta tem atingido outros títulos do Sonic moderno e até mesmo clássico. Como quando a IGN falou que Sonic nunca foi bom porque, teoricamente, os jogos do Mega Drive teriam envelhecido mal. Ou recentemente quando Sonic Forces foi mal-recebido e passaram a falar que Sonic Colors e até Sonic Generations envelheceram mal porque compartilham similaridades com ele.

Esse tipo de argumento não tem lógica, é anacrônico, injusto e em alguns momentos até desonesto.


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