Porque não sou mais fã da Nintendo em 2020

(Imagem retirada da internet)

Já faz um tempo que eu quero escrever sobre isso. Era fã da longa data da Nintendo e venho colecionando insatisfações com a empresa desde o final da geração Wii (meados de 2011). Ainda sou consumidor e tenho um Nintendo Switch, recentes decisões questionáveis e práticas anti-consumidor da empresa do encanador bigodudo, sobre tudo o polêmico relançamento de Pikimin 3 anunciado hoje, me inspiraram a fazer este post.

Desde pequeno, sempre fui fã da Nintendo, especialmente dos portáteis. Meu sonho de consumo de infância era um Game Boy Color roxo, mas minha família era pobre e não tinha condições. Jogava Super Nintendo na casa de amigos e sempre fui apaixonado. Na época que o console mais popular do momento era o Playstation 2, meu sonho era ter um Game Cube e jogar jogos como The Legend of Zelda Wind Waker. Minha franquia favorita da Nintendo, provavelmente, é Zelda.

A paixão se estendeu para a geração seguinte e meu sonho de consumo era um Wii e um DS. Um primo meu tinha um DSi, eu sempre dormia na casa dele e vivia jogando no aparelho, passava noites em claro. Assim que consegui meu primeiro emprego, o primeiro console que eu comprei foi um Nintendo 3DS, na cor roxa para concretizar meu sonho de criança de ter um Game Boy da mesma cor. Até hoje o DS e o 3DS são os consoles da Nintendo que eu tenho mais memórias gostosas e afeto e, felizmente, se afastam um pouco das questões que vou tratar aqui que são mais referentes aos consoles de mesa.

(Imagem de divulgação)

Na mesma época, também comprei um Wii usado juntando dinheiro com meu irmão. Para vocês terem noção, eu era tão nintendista que eu simplesmente ignorava todo jogo grande e relevante que não era lançado para plataformas da empresa. Eu praticamente só acompanhava notícias de jogos de portais nintendistas como Nintendo Blast, A Casa do Cogumelo e Wii Brasil (que existia na época), exceto por franquias de outras empresas que eu também sou fã, como Sonic.

O Wii é um dos maiores sucessos da Nintendo, até o momento é o console de mesa com maiores vendas da companhia tendo atingido de 100 milhões de unidades comercializadas, mas foi justamente nele que todos os problemas que vou me queixar aqui começaram. A proposta principal do Wii era ser um console mais acessível, tanto em preço quanto em jogabilidade e introduziu os controles de movimento que foram uma revolução na época. O console conseguiu reascender o interesse do público geral na Nintendo e até mesmo trouxe para o mercado gamer um público completamente novo que não se interessava por isso tipo de mídia anteriormente. Essas pessoas foram rotuladas, até mesmo de forma pejorativa, como jogadores casuais.

No entanto, apesar de todas essas ideias inovadoras e extremamente criativas, que influenciam a indústria de games até os dias atuais, o Wii era um produto defasado e amador em várias outras questões. Primeiro de tudo ele possuía um hardware bem inferior aos concorrentes e não possuía suporte a resolução HD. Outro problema é que a infraestrutura online, loja virtual e sistema de contas da Nintendo era extremamente precária. O Wii também não possuía uma grande memória interna, impossibilitando que seu sistema operacional fosse aprimorado de formas mais complexas em atualizações.

Para efeitos de comparação, enquanto nos outros consoles existia um sistema simples em que você podia enviar solicitações de amizade para os seus amigos, o Wii tinhas os polêmicos friend codes. Eram números gigantescos que você precisava trocar com seus amigos para poder adicioná-los e os dois precisavam se adicionar mutualmente, não haviam solicitações de amizade.

A questão dos gráficos defasados era uma faca de dois gumes, se por um lado esse detalhe era importante para a estratégia da Nintendo já que eles precisavam de um aparelho pequeno e que não tivesse problemas com super aquecimento, por outro, fez com que o console ficasse ultrapassado rápido demais. As TVs de alta definição se popularizaram muito rapidamente e a imagem do Wii ficava consideravelmente inferior nelas. A resolução poderia ser melhorada para 480p utilizando um cabo vídeo-componente, porém, os consoles eram comercializados por padrão contendo apenas um cabo AV simples. O hardware defasado do Wii também fez com que o aparelho fosse perdendo a maior parte dos lançamentos multiplataformas relevantes e em poucos anos de mercado passassem a viver quase exclusivamente de títulos da própria Nintendo.

Isso fez com que, apesar de ter sido inicialmente um sucesso estrondoso, o Wii também foi o primeiro console da sua geração a morrer. 2010 foi o último grande ano do Wii, se forçar muito podemos considerar 2011 já que teve o lançamento de The Legend of Zelda Skyward Sword, enquanto o PS3 e o Xbox 360, respectivamente, continuaram tendo lançamentos relevantes até depois de 2013! Na época o Wii adquiriu fama de consome que ficava pegando poeira na estante e a reputação da Nintendo dentro da comunidade gamer foi ficando cada vez pior.

Wii adquiriu fama de console colecionador de poeiras. (Imagem retirada da internet)

Boa parte de conhecidos meus que inicialmente haviam adquirido o console da Nintendo, com o passar dos anos acabaram migrando para a Sony e Microsoft. Lembro, inclusive, que na época foi divulgada uma pesquisa que demonstrava que apesar da base instalada do Wii ser maior, ela também era consideravelmente menos ativa. Ou seja, boa parte dos donos do Wii já haviam abandonado o console ou compravam jogos com menos frequência que os donos de Xbox 360 e PS3, o que também fazia com que o Wii fosse um console pouco rentável para desenvolvedoras terceirizadas. Elas acabavam dedicando times menores e projetos com menos orçamento ao desenvolver jogos para a plataforma.

Justamente por isso que o Nintendo Wii U foi anunciado e lançado tão prematuramente em comparação aos concorrentes PS4 e Xbox One. Sim, muita gente talvez fique espantada com isso, mas o Wii U é um console de oitava geração! Contudo, ele foi anunciado na E3 de 2011 e lançado em 2012.

O Nintendo Wii U

(Imagem de divulgação)

Se o Wii muitas vezes é lembrado e mencionado como um sucesso estrondoso e um dos aparelhos mais populares de todos os tempos, o mesmo não pode ser dito do seu sucessor, o Wii U, que é o maior fracasso comercial da Big N em matéria de consoles de mesa.

Muitas pessoas atribuem o fracasso do Wii U ao seu design inusitado, seu hardware modesto, o controle em formato de tablet e até mesmo a escolha do seu nome. Muito provavelmente, todos esses detalhes influenciaram, mas na minha opinião o motivo principal é que ele carregava a reputação negativa do Wii no final do seu ciclo de vida.

Em matérias do que de fato era a plataforma e seu ecossistema, o Wii U foi um avanço gigantesco em relação ao seu antecessor. O Wii U aposentou os jurássicos friend codes trazendo um sistema de solicitações de amizade mais funcional, um novo sistema de contas chamado Nintendo Network que apesar de ainda possuir alguns problemas, eram consideravelmente mais funcional. Além disso, o Wii U contava com uma rede social fechada contemplando também o ecossistema da família 3DS e com interações bem interessantes e criativas dentro dos jogos.


No entanto, ele ainda carregava alguns problemas do seu antecessor, sendo o mais evidente deles o hardware defasado. Assim como o Wii era um aparelho com hardware que mais se aproximava da geração anterior, o Wii U tinha um hardware que mais se aproximava do PS3 e Xbox 360 do que o de um console de nova geração. Na verdade, em questões técnicas o Wii U é consideravelmente mais potente que estes dois, porém, em seu ano de lançamento a maioria dos jogos eram ports atrasados de títulos multiplataforma que já haviam sido lançados para PS3 e Xbox 360. Podemos citar, Mass Effect 3, Batman Arkham City, Need for Speed Most Wanted e Assassin's Creed III como exemplos.

Apesar de estes jogos terem tido muitos recursos interessantes adicionados a suas versões para Wii U, como funcionalidades no gamepad, eles visualmente ainda eram muito parecidos, em alguns casos idênticos, às suas versões para a geração anterior. Alguns títulos, inclusive, apresentavam mais problemas de desempenho e quedas de framerate! Por que o público se importaria com um novo console que ao que tudo indica não iria oferecer nada muito diferente do que eles já possuíam em seus consoles atuais? Ainda mais considerando que a maioria desses jogos já estavam disponíveis nesses mesmos hardwares?

O controle-tablet

(Imagem de divulgação)

Outro problema foi o controle-tablet, ou gamepad. Na minha opinião, o gamepad foi uma inovação muito interessante. Ao contrário dos wiimotes, ele não abandonava o layout tradicional de um joystick, mas expandia adicionando novos recursos, como uma segunda tela touch screen, microfone, speakers, giroscópio, entre outros, além de poder ser utilizado como controle remoto para a televisão. A segunda tela do gamepad potencializava os recursos sociais do aparelho já que tornava muito mais prática e agradável à utilização da sua rede social interna, o Miiverse. Outra novidade legal era o navegador que era bastante completo para a época e podia ser aberto durante as jogatinas para pesquisar sobre os jogos ou até mesmo compartilhar screenshots nas redes sociais.

Além disso, muitos jogos multiplataforma e exclusivos fazem bom uso de todos esses recursos. As versões de Wii U de Mass Effect 3, Batman Arkham City e Assassin's Creed III e IV, por exemplo, utilizam todas essas funcionalidades. Da própria Nintendo temos Pikimin 3 as versões HD de Zelda Wind Waker e Twilight Princess, entre outros jogos que mostram que tais recursos podem sim enriquecer muito a experiência do jogador.


A grande questão é que em sua campanha de marketing, a Nintendo fracassou em comunicar ao público como todas essas funcionalidades poderiam fazer a diferença e justificar ser o ponto central do design do aparelho. A escolha dos títulos de lançamento, como New Super Mario Bros U, que utilizavam os recursos do gamepad de forma bem pobre, são a maior prova disso.

A campanha de marketing do Wii U, no geral, foi bem desastrosa. Seu nome fez com que parte do público casual pensassem que se tratava de um acessório para Wii, não uma plataforma completamente nova, e os comerciais televisivos focavam exclusivamente no público infantil.

Promessas e mais promessas e morreu na praia

Apesar de todos esses conceitos promissores, promessas não enchem barriga, o que importa é a execução. A Nintendo não conseguiu entregar a experiência que ela havia prometido, apenas alguns títulos multiplataforma da época do lançamento e exclusivos utilizavam os recursos do novo controle. Todos os outros jogos indie e ports não se esforçavam para isso, até mesmo porque os desenvolvedores não tinham incetivo.

O hardware defasado, especialmente em relação a CPU, fez com que muitas desenvolvedoras terceirizadas boicotassem a plataforma. A reputação negativa da época do Wii afastou o público gamer mais engajado e a Nintendo fracassou miseravelmente em fidelizar o público casual que ela havia conquistado no Wii. Simplesmente não sobrou ninguém, além dos fãs apaixonados, apoiando o console. Eu incluso, obviamente.

Todo esse cenário fez com que eu, enquanto consumidor, me sentisse abandonado pela Nintendo. Especialmente quando começaram os rumores sobre o desenvolvimento do Nintendo Switch. Eu sempre me incomodei com o fato de o Nintendo Wii ter tido um ciclo de vida menor que os aparelhos concorrentes. Se a gente investe em um novo hardware e ele não dura nem 3 anos recebendo lançamentos relevantes e suporte, como vamos sentir que o nosso dinheiro está sendo valorizado?

Qual é o sentido de comprar um console e depois de uns 2 ou 3 anos ter que comprar um aparelho da empresa concorrente para conseguir ter uma experiência completa durante toda a geração?

Para piorar, um dos títulos mais aguardados para Wii U era The Legend of Zelda Breath of the Wild, muitas pessoas compraram o console apenas esperando este jogo. Contudo, a Nintendo resolveu adiá-lo para ter como lançamento simultâneo no Nintendo Switch e para que a versão para o controle híbrido não parecesse inferior, eles removeram todas as funcionalidades do gamepad e deixaram apenas off-play TV!

E chegamos no Nintendo Switch

(Imagem de divulgação)

Enfim chegamos na atual geração com o Nintendo Switch, o console híbrido que conseguiu fazer a Nintendo se tornar popular novamente. Contudo, depois de duas experiências negativas seguidas consumindo consoles de mesa da Nintendo (Wii e Wii U), eu não tinha boas expectativas para o Switch.

O conceito do aparelho era muito interessante, mas o do Wii e Wii U também eram e especialmente o segundo ficou só na promessa. A minha imagem da Nintendo se tornou de uma empresa que vende aparelhos sempre com algum gimmick só para falar que tem alguma inovação, mas que sempre oferecem serviços precários em outros quesitos essenciais. Além de sempre trazerem hardwares fracos que ficam desatualizados com o tempo e que recebem sucessores prematuramente.

Eu não consigo mais comprar uma plataforma da Nintendo sem desconfiança, sem acreditar que vou ter meu dinheiro e fidelidade reconhecidos e apreciados, que eu sou enxergado como valor como consumidor. Com o passar do tempo, acabei adquirindo o Switch, porém, novamente boa parte desses meus temores se concretizaram. Na verdade, a Nintendo até mesmo conseguiu me surpreender negativamente um pouco mais.

Switch online. (imagem de divulgação)

A primeira decepção é que todos os avanços que tivemos na infraestrutura online do Wii U foram deixados de lado e a coisa voltou a ser tão ruim quanto na época do Wii. A rede social Miiverse foi desativada e não existe nada equivalente no Switch e os polêmicos friend codes retornaram. Para completar a cereja do bolo da decepção é que esse "novo" serviço agora é pago, enquanto os onlines do Wii e Wii U não requeriam nenhuma taxa. Além disso, o layout da eShop no Nintendo Switch é uma vergonha em relação a do Wii U. Os jogos ficam organizados de uma forma péssima.

eShop Wii U. (Imagem retirada da internet)

eShop Switch (Imagem retirada da internet)

Aliado a isso, veio a extinção do virtual console, jogos clássicos de plataformas antigas da Nintendo e de outras empresas que eram comercializados nas lojas do Wii, 3DS e Wii U. De acordo com a própria Nintendo, o motivo disso é que eles perceberam que o público poderia se incomodar em ter que adquirir novamente os mesmos jogos em novos consoles, então, ao invés de criar um sistema de contas decente, acharam melhor simplesmente impedir que as pessoas possam adquirir esses jogos e optaram por inseri-los em um sistema de assinatura. A Nintendo também começou uma caça às bruxas aos sites de roms e emuladores na internet, tendo como objetivo valorizar seu catálogo de jogos legados dificultando o acesso do público a eles. Imitando a polêmica estratégia vault da Disney!

Outro problema grave são os joycon drifts, um defeito de design presente nos controles destacáveis do Switch e até mesmo no Switch Lite, que com o uso os analógicos começam a registrar inputs fantasmas. Por se tratar de um problema de design, todos os joycons e Switch lites irão apresentar esse defeito eventualmente, sem exceção. Pode demorar mais ou menos dependendo da frequência do uso, mas a estimativa é que se manifeste em menos de um ano. Por conta disso, a Nintendo está sofrendo um processo coletivo nos EUA!

Bem, fora isso não tem muito o que reclamar, o Switch é um sucesso, recebe apoio de desenvolvedores terceirizados e tem um futuro visivelmente mais promissos que o Wii U, certo? Sim e não...

Obviamente o Switch é um sucesso inquestionável, mas a gente já consegue ver algumas coisas se repetindo. A primeira delas é que o Switch já está começando a perder lançamentos de jogos multiplataformas relevantes, devido ao ser hardware modesto. Entre exemplos podemos citar o novo Assassin's Creed Vahalla. A maioria dos jogos multiplataformas lançados para Switch atualmente são jogos indie ou remaster de jogos antigos de PS3, Xbox 360 e até mesmo Wii. Muitas pessoas estão rotulando o Switch como "um console de 10 anos atrás". Estamos entrando em uma nova geração e se o console mal roda os multiplataformas da geração atual, ele vai dar conta de acompanhar a seguinte?

Conclusão

Se você gosta da Nintendo e não tem nada a reclamar, seja feliz. Acredito que cada pessoa tem o direito de ter a sua opinião com base na sua experiência. Eu adoro as franquias da Nintendo e tenho uma história com várias de suas plataformas, mas eu não concordo com práticas anti-consumidor que eles têm adotado recentemente. Limitar o acesso aos seus jogos clássicos e conteúdo legado para poder ganhar mais dinheiro em cima deles, ignorar problemas de fábrica do aparelho por eras até precisar sofrer um processo na justiça.

Cobrar por um serviço online, mas não se preocupar em oferecer o mínimo de qualidade em comparação aos seus concorrentes. Em plenos 2020 não ter um sistema de contas decente, usar friend code. Lançar aparelhos com hardware que em 3 anos fica datado e não consegue mais acompanhar a geração. Ao invés de lançar sequências, ficar requentando jogos antigos e cobrando preço cheio por eles, removendo acesso a versão antiga também.

Isso porque nem entrei no mérito da relação da Nintendo com o público brasileiro!

"Pô cara, deixa de ser chato, o Nintendo Switch é um sucesso, vende milhões e blablabla"

Não sou acionista da Nintendo, então o que importa pra mim, é se o serviço é de qualidade, não quanto dinheiro eles estão fazendo. Simples!

Me digam a opinião de vocês nos comentários e comentem um pouco da relação de vocês com a Big N!


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